segunda-feira, 14 de junho de 2010

TEXTO 02

ARTE NOS MUROS


Os Gêmeos colorem o Cambuci e o mundo

João Wainer
Repórter fotógrafo

Os gêmeos univitelinos Otávio e Gustavo Pandolfo, 31, grafiteiros conhecidos como Os Gêmeos, desde janeiro de 2005 já expuseram seus trabalhos em Londres, Paris, Milão, Tóquio, Los Angeles, Nova York, Berlim, Havana, Hong Kong e Atenas. [...] A Nike acaba de lançar um tênis desenhado por eles, e o jornal The New York Times publicou uma reportagem elogiando a dupla e afirmando que suas obras podem valer até US$ 15 mil (R$ 34,2 mil) nos EUA.

Com um currículo desses, poderiam estar morando em qualquer lugar do mundo, mas ainda moram por aqui, no Cambuci, bairro paulistano de classe média. Não trocam a região por nada e, para a felicidade geral dos vizinhos e transeuntes, o que os irmãos mais gostam de fazer é grafitar as paredes e os muros do próprio bairro, transformando-o em uma enorme galeria de arte urbana ao ar livre.

Com os seus personagens bem vestidos e minimalisticamente desenhados nas paredes, interagindo com a paisagem, Os Gêmeos percorrem o mundo, e o bairro do Cambuci teve muito haver com isso.

No começo da década de 80, o movimento hip-hop chegou a São Paulo, e o bairro foi um dos mais influenciados pelo rap, break e grafite. [...]

“Acho que, se tivéssemos crescido em outro bairro, nosso trabalho não seria o que é hoje. Talvez nem fôssemos artistas. A gente não pensava em nada, era só curtição. Fazíamos festas e dançávamos nas esquinas, vivíamos pintando na rua. Era um clima tranqüilo, muito diferente do de hoje em dia.”

As parede do Cambuci tiveram o privilégio, muito anos antes de os irmãos nascerem, de serem pintadas por outro grande pintor brasileiro. Alfredo Volpi, que morou lá até morrer em 1988, pintava paredes e murais sob encomenda no início da carreira e também retratou em sua obra o bairro que hoje inspira os mais novos expoentes das artes plásticas brasileiras. [...]

“Quando eram pequenos, dei a eles uma folha de papel. Começaram a desenhar, um por cima, o outro por baixo. No meio do desenho, os traços se encontraram – ficou lindo. Os meninos sempre se falaram pouco. Eles se entendem pelo olhar”, conta orgulhoso o pai.

“Na Verdade, o bairro para nós é um grande ateliê. As vezes, estamos em casa, surge uma idéia e vamos para a rua a procura da parede mais próxima para fazer. Todo mundo do bairro nos conhece. Vão logo liberando os muros”, explica a dupla. [...]



Fonte: WAINER, João. Os Gêmeos colorem o Cambuci e o mundo. Folha de S. Paulo. São Paulo, 30 out. 2005, p. E6. Caderno Folha Ilustrada.

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